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E se estivéssemos livres da morte? Até mesmo livres do próprio corpo, podendo escolher este que lhe agradar mais. Seria um paraíso?

Nem um pouco. Se temos apenas um pouco de noção do mundo em que vivemos, já imaginamos o resultado. Seria longe de um Éden. Estaria mais perto de um mercado onde se pode rentabilizar a vida, os sonhos. Aí então, depois de lucrar com as possibilidades, seria visto de forma necessária para o ser humano.

Altered Carbon, a nova série de ficção científica da Netflix, estreou com essa premissa no último dia 2, mas não de forma evasiva. Cheia de detalhes dos bastidores sobre esse novo mundo, como sistema de capas (como os corpos utilizados agora são chamados) influencia na polícia: um criminoso pegando qualquer capa disponível, crianças mortas sendo recolocadas em corpos adultos pois a família não tem dinheiro para fazer um clone, entre outras coisas. O protagonista é Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman) que, obviamente, não dá para não comparar com a história de “Ghost In The Shell” nos cinemas, pois ele também é um oriental colocado em um corpo de ocidental. Mas, ao contrário da personagem de Scarlett Johansson, aqui tudo isso complica a vida dele. Agora, não só terá que lidar com os problemas da sua vida anterior, mas também com do dono original da capa que agora utiliza. Após 250 anos “congelado”, ele então desperta em seu novo corpo em uma São Francisco totalmente bizarra, das mãos de um empresário que quer descobrir quem matou a si mesmo.

Parece confuso, realmente, mas a narrativa da série é tão boa que a quantidade de vezes de atores em cada personagem não incomoda. Na verdade, a enriquece. Além disso, a ação e fotografia é viva, em poucos momentos parece mesmo uma série de televisão (que costumam ter orçamentos menores que os de cinema). Porém, não há como negar que a série tenta beber um pouco da HBO, apelando para cenas de nudez frontal completa, tanto feminina quanto masculina, como também pela violência. Por mais que estas saltem os olhos, nada disso descaracteriza a série, pelo contrário, até a deixa mais viva e fiel às referências e origens do Cyberpunk: Philip. K. Dick e seu “Andróides sonham com Ovelhas Elétricas?”, “Neuromancer” de William Gibson, os RPGs, “Cyberpunk 2020” e, um pouco menos, “Shadowrun”.

“Joel Kinnaman como Takeshi Kovacs: implacável e convincente.”

Joel Kinnaman está ótimo no papel principal, vindo de um crítico que não tem muito carinho pelos seus trabalhos como Esquadrão Suicida, no qual ele fez o Rick Flag, ou como o personagem-título em “Robocop” (2014). Como Kovacs, um homem com descendência russa e japonesa em um corpo caucasiano, ele passa imponência, medo e convence aquele perfil do anti-herói que não quer demonstrar que por dentro é alguém bom. Talvez seja isso que faltasse na carreira dele, cheio de personagens de bom-mocismo.

Os coadjuvantes também mantém seu trabalho em bom nível, principalmente alguns que tem tanto de mudar de papel (devido ao explicado sobre as capas) e nem são conhecidos.

É curioso olhar para o ano passado e ver como houve tentativas de um cyberpunk que não só vendesse para os fãs ou críticos, mas que se encontrasse com o público em geral: aquele em massa que realmente paga o orçamento estrondoso desse tipo de criação. Antes de falar algo como “mas fã paga”, sim. Ele paga, mas este custo é muito alto para apenas esse nicho conter as despesas. Vide “Bladerunner” original (originado naquele livro de K. Dick citado antes) ou até mesmo o 2049: obras de arte que não se pagaram em bilheterias.

‘Bladerunner’ – Apesar de ótimo, bilheteria foi abaixo do esperado”

A vantagem de se ter uma série assim na Netflix é que o site conta por assinaturas feitas para assistir a série, e não a quantidade de vezes a qual foi assistida exatamente. Isso cria novas formas de lucro que podem disponibilizar séries com esse teor tão nichado e caro (sci-fi cyberpunk cheio de violência e sexo e efeitos visuais). Lembre-se, um dos lemas de produtores em Hollywood é quando mais caro o seu filme, mais abrangente tem de ser o seu público. Este conseguiu ir na contramão de tudo isso… E se saiu muito bem.

Aliás, vale ressaltar que a série foi baseada na série de livros Altered Carbon, que a Editora Bertrand lançou o primeiro volume (do mesmo arco da série) e se prepara para lançar o segundo volume: Anjos Partidos.