Guia do Apocalipse Zumbi – Apartamento 42

0

Por Rodrigo Florencio.

Estou de volta com mais uma postagem do G.A.Z, só que hoje ela será um tanto diferente. Este post não terá um experimento prático de defesa contra zumbis, como aconteceu no post sobre a Maisena Explosiva ou do Martelo Calibre 12.

Como acredito que a melhor forma de se aprender é através da experiência “vivida” e como este Guia tem a pretensão de tornar-se um livro (em algum momento futuro), resolvi hoje focar na narrativa de um conto sobre zumbis.

Espero que gostem e aguardo ansiosamente por retornos e dicas nos comentários!

Guia do Apocalipse Zumbi – O apartamento 42

No centro da cidade não havia movimento. Até mesmo o ar no final daquela tarde abafada parecia ter deixado de circular entre os carros abandonados pela avenida principal. Escondendo-se entre os prédios, o Sol já indicava sua partida tardia, no que costumava ser chamado “Horário de Verão”.

Passos coordenados contornavam silenciosamente os carros em direção a fachada de um prédio residencial. Ao que aparentavam ser, homens de uma força policial de elite, totalmente cobertos com grossos coletes pretos, joelheiras e até mesmo capacetes com grandes viseiras de um plastico rígido, caminhavam sincronizados até a portaria do edifico Alvorada 2.

O portão de acesso para veículos estava totalmente aberto. Um lance de degraus e já se avistava a recepção, escura e abafada.

Caminhando em V, com o líder na frente e dois outros homens caminhando logo atrás, a equipe tática progrediu na escuridão empunhando submetralhadoras de calibre baixo mas alto poder de disparos por segundo.

Os homens acenderam suas lanternas, acopladas na parte de cima de suas armas e começaram a vasculhar. Logo, o sujeito próximo as caixas postais chamou a atenção geral.

Iluminada pela lanterna do homem, na parede, uma pequena placa de metal prateada tinha o número 42 gravado.

A porta da escada de emergência rangeu mais do que se esperava quando empurrada vagarosamente pelo líder tático. Os dois outros passaram voando por ele e se postaram defensivamente antes de iniciar a subida.

Eles levaram 30 minutos para concluir a subida, sendo rigorosamente cautelosos a cada porta de andar aberta que encontraram pelo caminho. Logo, estavam de frente para a última porta “Acesso a Cobertura – 42”.

Havia muita tensão no ar. Aqueles homens estavam ali por um motivo que desconhecemos neste momento. Tamanha confiança e objetividade, até mesmo  hierarquia eram noções a tanto perdidas neste mundo devastado.

Não há tempo para discussões morais. A equipe tática já havia avançado, deixando apenas escuridão e nossas dúvidas para trás.

A porta do apartamento 42 estava logo a frente. Um dos homens já trabalhava em sua fechadura com um pequeno e brilhante maçarico portátil. A fechadura cedeu facilmente.

Entrando no apartamento, o cheiro podre do corredor parecia sumir. Algo como uma brisa leve e refrescante era sentida atravessando a grande sala de pouca mobília. Apenas um sofá branco de 5 lugares em um canto e uma grande mesa de vidro do outro lado. Nada mais naquela grande sala de uma cobertura no centro.

O ambiente tinha muitas portas, ao que havia contado rapidamente, três a esquerda dos homens, duas a direita e duas outras a frente, além de um corredor muito escuro para se saber detalhes por enquanto.

Uma busca cautelosa nas portas da direita e esquerda da sala não deram em nada, a não ser outras salas, só que desta vez abarrotadas de móveis, cadeiras sobre cadeiras e roupas jogadas pelo chão.

Com um sinal de mão o líder tático ordena o avanço ao corredor. Nada mais gelado do que o ar agora tocava o rosto dos homens, ainda que em sua maior parte coberto pelo plástico de suas viseiras.

Uma única porta e não só por isso, distinta, apontava no final do corredor. Era de metal, claramente segura e reforçada. O painel biométrico a sua direita parecia ter sido quebrado propositalmente. Logo, o maçarico voltou a trabalhar.

Após mais de duas horas de trabalho no maçarico, finalmente o homem de cabelos escuros, que agora já havia retirado seu capacete devido ao calor da tarefa, encerrou a chama e acenou aos dois.

“Precisamos do Doutor vivo, qualquer outra… coisa… que estiver ai… matem” disse o líder tático agora empunhando sua Glock, deixando sua submetralhadora repousando, pendurada na altura de seu peito.

Com dificuldade a porta de 15 centímetros de espessura se moveu e bateu contra a parede. O estrondo fez com que todos sentissem a espinha estalar, talvez por frio ou talvez pelo mais puro e genuíno medo que é acometido a homens de frente na guerra.

Sentado, sozinho em uma cadeira de aço inox no meio desta sala branca, lembrando muito um hospital, estava um senhor de idade, vestindo um avental preto, parecia ter dificuldades para respirar. Os homens analisaram a cena por alguns instantes. Um choque de adrenalina percorreu as veias daqueles soldados, não havia tempo a perder. Em sua mão direita, o velho ofegante tinha um aparato que lembrava um controle. Seu dedo retorcido repousava sobre um botão. Aquele velho sorriu, talvez a última vez em sua vida. Um disparo rompeu o silêncio. Estamos em choque. Você está em choque. O velho, esta morto. Um furo entre seus olhos, quase menor que uma moeda nem ao menos respinga sangue. Mas seu dedo já retorcido deixou está vida totalmente pressionado em um botão do controle.

“Doutor… você condenou a todos nós” – disse o líder tático já com a Glock abaixada.

Não foi preciso ordenar a retirada dos outros dois soldados. Eles viraram prontamente e correram. O capitão permaneceu parado, apenas mexendo em seus bolsos.

“Vai vai vai” gritava um dos homens enquanto rompia pela porta da escada de emergência.

Dentro do laboratório, o capitão havia achado o que procurava. Um maço de cigarros.

Retirou seu capacete, soltando-o para trás no chão. Colocou o cigarro de filtro marrom na boca. Seu rosto suado, olhos plácidos, com uma espécie de calmaria “zen” equivaliam a de um condenado a forca ao saber de seu fim irremediável.

Acendeu o cigarro. Tragou forte. Soprou a fumaça na própria ponta do cigarro enquanto encarava a maravilha que o fumo enrolado havia lhe proporcionado. Estava pronto. ELES TAMBÉM.

No fundo da sala, um monitor led piscava com os dizeres “Liberado”.

Uma figura humana irrompeu de uma porta dupla, não vista antes do fundo da sala. O “homem” andava vagarosamente, parecia estar carregando algo nas costas, não dava para saber ainda o que era. De um estado aparentemente letárgico, o homem se tornou alerta assim que passou próximo ao corpo do Doutor morto.

Logo, a figura já não era tão humana. Enquanto debruçava-se sobre o corpo do velho, a criatura revelou sua “carga”. Atrás de seu corpo, havia algo costurado a ele. Uma cabeça costurada a sua cabeça. Um outro homem, mas este sem o maxilar, totalmente arrancado até o inicio do que seria o torax. A criatura ainda tinha lingua e os dentes de cima, e agora contorcia-se. Era apenas uma cabeça presa a uma coluna vertebral com o tronco semi aberto. Não tinha pernas. Estava costurado ao tronco do outro ser, de pele cinza e aparentemente flagelada.

A criatura sentou-se em cima do velho para que sua carga preciosa pudesse começar desfigurar o rosto do cadaver. Enfiou seus dedos ávidos nas orbitas oculares e arrancou os olhos da vítima. Partiu dali puxando com toda força o maxilar, que se rompeu e rasgou toda a garganta até expor as cordas vocais.

O hospedeiro olhava atentamente para o capitão, que agora já havia terminado seu cigarro e olhava com nojo a criatura. Ele seria o próximo. E todos os outros sobreviventes na cidade também seriam vitimas dessa coisa. Não bastassem os zumbis comuns, agora homens insanos ao redor do mundo pareciam brincar com a genetica desoladora do Apocalipse Zumbi.

Aquilo não sairia dali. Não está noite.

Os dois soldados finalmente chegaram a recepção e aos tropeços atravessaram o portão rumo a calçada. Não houve muito tempo para reagir. Uma explosão no último andar do prédio lançou um arco de escombros por toda a fachada do prédio. Os homens se protegeram como puderam. Choveu sangue e pedaços de corpos. Não havia mais o que fazer ali.

“Alvo destruído, não retornaremos com o Doutor…” se entreolharam por poucos segundos, com pesar nos olhos. O soldado com o rádio continuou o relatório. ” … o capitão também não retornará conosco. Câmbio”.

 

About author
Equipe Geek Vox

Equipe Geek Vox

Doug Oliveira & Rodrigo Maroto. Os Geeks que dão voz ao Geek Vox! OUÇA NOSSO PODCAST EM: http://geekvox.com.br/geek-vox/